| Fique Ligado(a)... |
|
Só quem já se apaixonou sabe o quanto gostar de alguém é bom. Mas nem sempre é assim e, quando passa da medida, o amor pode ser um vilão para a saúde Publicado em 03/11/2010 | Rafaela Bortolin O coração dispara, as mãos ficam suadas, as bochechas ficam rosadas, surgem as famosas “borboletas” no estômago, você fica distraído e não consegue pensar em outra coisa. Você pode até tentar negar, mas não tem jeito: está complemente apaixonado. Um dos sentimentos mais celebrados pelos poetas e músicos, o amor e sua fase inicial, a paixão, viraram foco de pesquisas no mundo todo nas últimas décadas e as descobertas trazem uma boa notícia: amar faz muito bem à saúde. E Malachias não está sozinho neste tese. Segundo estudos recentes, se apaixonar é um excelente recurso para fugir de doenças graves, como a depressão. Isso porque alguns sinais da paixão são bem conhecidos, como taquicardia, respiração ofegante, frio na barriga, insônia e redução do apetite, mas há outros que são muito mais significativos. “Há um aumento da pressão arterial e a própria resposta imunológica melhora. Com isso, o corpo fica ainda mais protegido contra infecções e doenças”, explica a médica fisiologista e autora do livro Sexo, Amor, Endorfinas e Bobagens, Cibele Fabichak. Conte a sua história - Você já teve dor de amor? Como conseguiu curá-la? Ou teve alguma experiência com final feliz e acha que amar pode fazer bem à saúde? Deixe um comentário ou mande um e-mail para Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. ProblemasRelação infeliz pode gerar câncer Quem não conhece uma pessoa que vive um casamento de longa data, mas é muito infeliz? Pois, segundo os especialistas, é bom tomar cuidado, pois esse tipo de relação pode ser uma bomba para a saúde. “Um estudo americano avaliou pessoas em relações duradouras de décadas e descobriu que, após elas completarem 70 anos, as que se diziam infelizes começavam a apresentar doenças cardiovasculares, depressão e câncer em maior número que as que estavam satisfeitas com seu casamento”, conta a médica fisiologista Cibele Fabichak. A explicação, segundo Lincoln Cesar Andrade, psiquiatra da Paraná Clínicas e da Centro de Estudos do Amor e da Sexualidade Humana ( Cenasex), é simples. Esses casais vão acumulando estresse no decorrer do casamento e esse é um fator que pode diminuir a eficiência do sistema imunológico, além de desencadear inúmeras doenças, como gastrite, úlcera, hipertensão, enfarte, AVC, diabetes e até câncer, se ela tiver propensão para esses problemas”. Casados há trinta anos, o serventuário da Justiça Valdomiro Baptista e sua esposa, a aposentada Vera Baptista, fazem de tudo para não correr esse risco. “Quando você ama, fica tranquilo e se sente mais em paz, o que acho que ajuda a manter a saúde em dia. Sei que quando tiver algum problema, terei sempre meu marido para conversar”. Sobre o que faz diferença em um relacionamento, ela garante que bom humor é essencial. “Deve ser horrível conviver com alguém mal humorado”, diz. Para o marido, é essa alegria que rende uma vida a dois com mais qualidade. “Você tem outro estado espírito quando sabe que há alguém que te ama tanto”, comenta. Eles x ElasVocê se recorda da cor da camiseta que seu namorado usou no primeiro encontro? E sua esposa sempre cobra que você não se lembra da data do aniversário de casamento? Pois tudo isso tem um “culpado”: o hipocampo, uma estrutura do cérebro relacionada com a memória. Nas mulheres, ele é maior, o que, para muitos pesquisadores, explica o fato de elas darem tanta importância à lembrança de detalhes emocionais. Quer emagrecer?Então se apaixone. Segundo a médica fisiologista Cibele Fabichak, a paixão tem a capacidade de mudar um pouco do sistema metabólico de homens e mulheres, facilitando a perda de peso. “Quando a pessoa está apaixonada, seu organismo apresenta um consumo maior de energia para trabalhar e o metabolismo se acelera, o que pode gerar uma redução no peso”, explica. Mas, cuidado: a perda de peso é pequena – cerca de alguns gramas ou poucos quilos – e só acontece quando combinada com alimentação saudável e prática de exercícios regulares. “Não adianta suspirar pelo namorado e exagerar nos doces”, brinca a médica. Hormônio do amorÉ assim que os pesquisadores vem chamando a oxitocina. Estudos recentes identificaram que esse hormônio, produzido no sistema nervoso central e antes conhecido somente por facilitar as contrações durante o parto e a amamentação nos primeiros meses após a gestação, também favorece o contato social, é importante para firmar vínculos duradouros e facilita os processos cerebrais de reconhecimento do outro como fonte de amor e prazer. Voltar a sorrir - “Ninguém morre de amor”. Quem garante é a secretária Maria Helena Barros e ela sabe bem do que está falando. Em junho de 1999, ela decidiu pedir a separação e acabar com seu casamento, que durava 23 anos. “Vi que amava muito meu marido, mas estava decepcionada e o relacionamento não fazia bem para nós dois”, explica. Depois de assinar os papéis do divórcio, veio o desespero. “O amor que sentia por ele era cada vez maior e aquilo me corroía de uma maneira que não conseguia cuidar dos meus filhos, não queria comer, dormir e nem viver. Eu ligava para ele, chorava, fiquei de cama, fui internada e tive gastrite, bulimia, anorexia e depressão profunda”, conta. Agora, segundo ela, tudo passou. “Depois de cinco anos, procurei por tratamento médico e comecei a sorrir de novo. Com o apoio da famílias e amigos, dei a volta por cima e sou uma pessoa extremamente feliz.” Segundo ela, o amor também faz bem porque, dentro do turbilhão de hormônios que se alteram durante a paixão, alguns têm sua quantidade aumentada, como a dopamina, a noradrenalina, as endorfinas, o cortisol, a testosterona e os estrógenos, elementos ligados à sensação de bem-estar, de felicidade e do desejo sexual. “Por isso, a paixão é um anti-depressivo natural, pois eleva o humor e amplia as sensações de prazer.” Outro ponto positivo é que pessoas apaixonadas costumam dar mais valor à sua saúde e se preocupam em não ficar doentes. “O amor faz com que a pessoa fique mais feliz, a vida se torne mais interessante e ela descubra um motivo ainda mais forte para se cuidar e estar sempre ao lado de quem gosta”, comenta Lincoln Cesar Andrade, médico psiquiatra da Paraná Clínicas e do Centro de Estudos do Amor e da Sexualidade Humana (Cenasex). Para quem acha que isso é coisa de pessoas românticas, a ciência já provou esses benefícios. “Um estudo mostrou que homens que se separavam e não se casavam novamente tinha uma diminuição na expectativa de vida porque, devido à tristeza pelo fim do relacionamento, ficavam mais deprimidos e menos resistentes a doenças”, conta Ailton Amélio da Silva, psicólogo e professor da Universidade de São Paulo (USP). Além desses benefícios, os especialistas garantem que amar vale a pena porque não tem contra-indicação. “A paixão causa alterações na glicemia e na pressão arterial, mas são modificações tão suaves que não podem prejudicar a saúde de pessoas que são hipertensas ou diabéticas, nem mesmo desencadear um problema desses em quem é saudável”, garante Cibele. Quando tudo vira dor O coração dispara, as mãos ficam trêmulas e suadas, as bochechas ficam rosadas... Os mesmos bons sintomas do amor podem ser acompanhados de respiração ofegante, ansiedade e angústia. O corpo fica todo dolorido, você sente uma dor que parece não ter fim e não consegue mais comer, trabalhar, se divertir ou dormir porque só pensa na pessoa amada por dias e noites inteiras. Se amar faz bem, sentir amor em excesso é doentio e faz muito mal à saúde. E se engana quem pensa que as consequências são só emocionais: facilmente o pico de estresse e nervosismo pode resultar em dores físicas. “Há vários casos de pessoas que sentem tanta dor após o fim de um relacionamento que passam a somatizar sintomas e sofrem com crises de ansiedade, náuseas, insônia, falta de apetite, dores musculares e oscilação do humor e podem chegar a quadros de gastrite, alergias, cefaleia e depressão”, explica o médico neurologista José Geraldo Speciali. Isso tudo pode acontecer quando o amor deixa de ser uma reação saudável para se tornar algo patológico e o carinho dá lugar à obsessão. “Em geral, essa fronteira entre a paixão e o transtorno é bastante difícil de ser identificada, mas quando o amor passa a atrapalhar a vida da pessoa e ela começa a magoar a si mesma, ao companheiro ou às pessoas próximas, está na hora de ligar o sinal de alerta e procurar a ajuda de um psiquiatra”, diz Andrade. O médico psiquiatra e vice-presidente da Sociedade Paranaense de Psiquiatria (SPP), Sivan Mauer, explica que, quando o amor acaba, a sensação é a mesma de qualquer outra perda que uma pessoa enfrenta na vida. “Ele gera um processo de luto e a dor faz parte do processo de superação, mas se a pessoa fica mais de seis meses sem conseguir se concentrar no trabalho, perde o interesse em se cuidar e se divertir, está sempre ansiosa e não consegue dormir, ela deixou de amar de maneira saudável.” Isso é perigoso porque reações como essas causam um desgaste sério no organismo. “A pessoa fica suscetível a doenças, como resfriados e infecções, porque o estresse diminui sua imunidade e passa a ter hábitos não saudáveis, como não dormir e não se alimentar. É o caso clássico da pessoa que perde o cônjuge e morre ‘de tristeza’ porque o organismo fica debilitado com a perda”, explica Silva. Menos dor No mês passado, uma pesquisa realizada nos Estados Unidos comprovou o que muitos médicos já sabiam: pessoas apaixonadas realmente sentem menos dor que as demais. A pesquisa foi feita com estudantes que viam as fotos de seus namorados, namoradas ou pessoas que consideravam atraentes enquanto um aparelho provocava leves dores em suas mãos. O resultado? Aquelas que viam as fotos sentiam menos dor que as demais. “Isso acontece porque pessoas apaixonadas têm picos de liberação de endorfina, que são potentes analgésicos naturais, reduzem a sensação de dor e provocam uma certa amnésia no sistema nervoso. Você sabe que passou por um processo doloroso, mas não lembra o quanto isso doeu”, explica a médica fisiologista Cibele Fabichak. Segundo Fabíola Minson, médica anesteologista e diretora da Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED), outro ponto que contribui para isso é que pessoas apaixonadas geralmente ficam distraídas quando pensam ou veem o foco de seu amor. “Um dos tratamentos mais potentes contra a dor é distrair o paciente para que ele pense em outras coisas e o amor é excelente para isso porque a pessoa passa a lembrar de seu namorado e esquece que tem algum problema. Com isso, engana o cérebro de maneira saudável e bastante prazerosa”, diz o médico neurologista José Geraldo Speciali. Mas Cibele esclarece que o efeito não é assim tão poderoso. “O amor não chega a dispensar medicamentos, mas pode ser uma boa contribuição para reduzi-los”, comenta.
![]() Foi publicada a matéria: "O lado concreto do Amor", em 19/09/2010, Domingo, na Revista do Jornal da Tarde. A jornalista Mônica Pestana aborda os diversos "ingredientes" da paixão e entrevista Cibele Fabichak. Veja uma amostra da publicação: ![]() ![]()
|